psique e suas nuances

psique e suas nuances

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Depressão e a covardia moral.

A Ética do Desejo e a Covardia Moral

Carlos Eduardo Leal

Resumo

O objetivo deste trabalho é pensar como o sujeito pode se deixar subsumir pelas intempéries da vida que ocasionam a angústia. A culpa como correlato da angústia é o que leva o ser humano a ter, não um comportamento ético nas suas ações, mas sim justo o contrário que é a covardia moral. A angústia do ponto de vista clínico, pode ser um bom balizador para situarmos no mundo moderno, a ética do desejo na vida em comum.

Resumé

Cet article a le but de penser comment le sujet peut se laisser anéanti par les conditions, le plus lourdes, de la vie qui font produire l’ angoisse. La culpe comme correlatif de l’ angoisse, c’ est ce qui méne l’ être humain a avoir, pas une coduite éthique dans ses actions, mais, par contre, elle fait le sujet vivre la lâcheté moral. L’ angoisse, du point de vue clínique, peut être un baliseur de bonne qualité, pour situer dans le monde moderne, l’ éthique du désir dans la vie cotidienne.


                                                                 Tudo o que se procura, será descoberto.
                     
                                                                                                Édipo Rei - Sófocles

Encruzilhada a céu aberto

Na encruzilhada de uma decisão, frente a uma escolha sempre presente, sempre recomeçada, a vacilação do sujeito põe em causa a constelação do seu desejo. Cometa alucinado a cruzar os céus do imaginário aflitivo e pessoal de cada um, o desejo inconsciente deixa como rastro na poeira de sua cauda, a insatisfação pela sua não realização. O brilho fálico do desejo, vislumbrado na negritude do firmamento, impõe ao sujeito uma espécie de obrigatoriedade em deter o que não se captura; o infinito deslizar metonímico deste cometa-desejo.
Em sua laboriosa fantasia o neurótico sonha iludido em realizá-la. O desejo inconsciente irrompe como um clarão que parece profanar o que até então era cegueira provocada pela opacidade da própria vida. Telescópio em punho, alinhado com a aparente previsibilidade do surgimento do desejo, ledo engano pois este surge de onde o sujeito menos espera e, invariavelmente, ele é tomado pelo efeito de surpresa, ou como Freud falou sobre o caso Emma, ´a emoção do susto`.[1] A imprevisibilidade do advento do desejo é correlata à abertura na vida humana da dimensão sexual, que se traduz como uma experiência daquilo que não cessa de não se inscrever: o real traumático.
Alinhado com as esperanças nutridas através das galáxias da linguagem, o sujeito ilude-se ao pensar que poderá sair em sua vida da posição de impossibilidade - como é o caso da neurose obsessiva - ou da posição de insatisfação - como é o caso da histeria - bastando para isto que ele realize e satisfaça o seu desejo. A esperança aqui se traduz em temor pela incerteza diante do futuro. A promessa de felicidade aparece como o sol que surge no horizonte das incertezas depois de uma noite de trevas. Só que na noite, tinha-se muitas estrelas e não se sabia qual seguir. Agora, durante o luzeiro, apenas uma para projetar a esperança porém, com a condição de não olharmos para ela, ou melhor dizendo, para ele, o sol.  Esta parece ser a fonte dos enganos na vida do homem comum. Manter a esperança sobre algo que na verdade ele jamais poderá olhá-la de frente sob a pena da cegueira, tal como Édipo, Creonte e outros que ousaram saber toda a verdade.
Na encruzilhada de uma decisão, atualmente apela-se aos astros com a falsa esperança de evitar o encontro com a tragédia do desejo. No mapa astral, pode-se olhar os astros sem o temor de que sejam por eles cegados. Porém, a verdadeira cegueira advém através do encobrimento da palavra que ao privilegiar o destino, retira do sujeito a responsabilidade sobre o seu desejo. Quando entregamos ao Outro o fardo da nossa causa é bem provável que encontremos o alívio, com um preço a pagar por isto que é o de não termos acesso à verdade.[2]
O desejo não pode se consumar numa tragédia. A dimensão trágica é quando dele não queremos saber e supomos que poderemos viver nesta insciência. O alerta dado pelo inconsciente tem a serventia para que possamos dele desfrutar e não para que fiquemos atrelados à um usufruto, este gozo de puro sofrimento.
O analista é aquele que vive o presente no passado e traz o passado para o presente. Tal como as estrelas, cujo brilho que nos chega de um passado longínquo atualizado no presente. O céu do analisante é seu inconsciente onde existem alguns buracos negros através dos quais até a luz é puxada para dentro. Dentro desta alegoria espacial, podemos também dizer que a interpretação analítica é um verdadeiro meteoro cuja cauda deixa rastros na vida do sujeito. Ou ainda, que a interpretação é uma estrela cadente que por sua velocidade e clarão impostos, não dá chance ao sujeito de fazer um pedido como se faz popularmente, enfim, de fazer uma demanda.
A interpretação não visa à demanda, mas sim ao desejo. A interpretação faz furo no céu do desejo inconsciente. A interpretação abre um real de espanto onde o sujeito pode ver uma constelação de pensamentos que apesar de serem dele, não se sabia da sua existência. A análise produz dia, luz, clarão radiante onde tudo era noite sombria na vida do analisando.
Mas a análise traz também em seu bojo, a noite e suas sombras quando o brilho excessivo do real acaba por produzir uma cegueira insuportável. A análise produz a sucessão dos dias – travessia - reproduzindo a vida dentro da vida, a morte dentro da morte, mas também a vida dentro da morte e seu reverso, isto é, a morte no interior da vida.
A análise permite a abertura do céu do inconsciente para o próprio analisante. O descortinar de um véu, produz a possibilidade de um percurso nunca antes transcorrido. Percurso difícil onde por vezes parece um céu infinito noutras um dia claro e em outras ocasiões, parece não haver caminho possível  para se trilhar. Deste lugar sem saída, desta posição de desterramento insuportável tal como um fora de casa, fora de seu ethos, surge a dimensão de algo que não engana: a angústia.


"É necessário para ser feliz você suportar uma anormalidade. Uma anormalidade é aquilo que nos destaca do grupo. E suportar o destaque 'non facile'. Por isso que eu insisto que o problema na vida é a inteligência, a beleza, é o charme... São todas as coisas boas. Porque todas as merdas são solidárias" (Jorge Forbes)